Mais do que uma viagem que nos leve tanto de Pernambuco à Santa Catarina quanto do Canadá ao Japão, a programação do 2º FESTCiMM – Mostra Animação transita por temáticas das mais distintas para compor uma curadoria que se vale tanto do viés educacional (e bastante crítico) quanto do entretenimento infantil até chegar em obras generalistas carregadas de emoção. Vamos a cada uma delas, que possuem duração de um a 16 minutos, na ordem disponibilizada na página do Festival – a mesma que consta na imagem de abertura do texto. Não deixem de acompanhar a cobertura completa do Festival nesse link. Segue um índice que nos leva diretamente ao filme em questão:
Canção Sem Voz
Sonhos da Isah: O Baú do Papai
Água é Vida
Hellcife – Até quando?
Blue & Curt
A Festa no Céu
CANÇÃO SEM VOZ (NOBUYOSHI SUZUKI, 2020)
A primeira obra assistida no Festival, “Canção sem Voz“, já cria duas identificações imediatas. A primeira é geral, a partir do uso de elementos das animações japonesas das últimas décadas. Com a âncora cultural muito forte pelo uso do idioma, que possui uma sonoridade única, o realizador Nobuyoshi Suzuki traz em sua produção de estreia um equilíbrio de duas maneiras de se criar uma narrativa de animação. A primeira é a partir de uma montagem que aproxima uma áurea mais pop, criando um dinamismo que permite que a história – que nitidamente traz uma premissa de um bom longa-metragem – seja contada em quinze minutos. Só que o japonês utiliza esse expediente em paralelo ao tom mais melancólico típico da filmografia de animação de seu país. É como se a escola do cinema de Isao Takahata fosse responsável por um curta da Pixar.
Inclusive, o objeto de “Canção sem Voz” já o torna tão universalista quanto os motes das obras desse braço da Disney. Ao falar da decisão de adoção de um cachorro e tudo o que isso implica, adiciona uma reflexão sobre a própria vida do protagonista e como a ausência de confiança depositada nele se refletiu em um medo. Não deixa de entrar nos riscos com corremos ao projetar comportamentos e expectativas nos animais que trazemos para o nosso convívio. Linear e bem resolvido na edição (apesar de, por vezes, exagerar no uso do artifício das repetições), teve um aditivo emocional na segunda identificação, totalmente particular – já que o espectador era alguém que mudou sua relação com os cachorros chegando a fazer o mesmo movimento de adoção contado no curta-metragem durante o período de isolamento social.
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SONHOS DA ISAH: O BAÚ DO PAPAI (JOÃO RICARDO, 2020)
A ficha técnica de do 2º FESTCiMM – Mostra Animação categoriza “Sonhos da Isah: O Baú do Papai” como um filme do gênero educativo. Fica claro o objetivo do cineasta João Ricardo de usar a relação dos brinquedos antigos do pai da protagonista para trazer esse vínculo afetivo tanto com o passado quanto com a relação familiar. Não é de propósito mencionar a Pixar de novo, mas a premissa da obra se vale, de certo modo, do universo criado por “Toy Story” (1995) e suas três sequências. Uma saga bem longa e que mesmo assim se mantém com qualidade justamente porque os caminhos que podemos seguir nessa abordagem são múltiplos e cada troca geracional traz consigo novas demandas
João Ricardo escolhe um caminho, de fato, educativo. Parte de objetos comuns dos anos 1940, como o peão e o rádio para, sutilmente, trazer informações sobre o Estatuto da Mulher Casada (como foi conhecida a Lei 4.121/62). Uma norma que sempre merece ser rediscutida pelos avanços e manutenções opressoras alcançadas. Ao mesmo tempo em que a mulher passou a ter mais liberdade (antes disso ela era legalmente quase incapaz para fazer coisas das mais comuns sem a autorização do marido), consolidou o entendimento de que a dupla jornada – acumulando a vida pública com o trabalho doméstico – é direcionado às mulheres.
“Sonhos da Isah: O Baú do Papai” é protagonizado por um pai porque sua força educativa se potencializa quando parte dele observações da sociedade machista que bem lhe cabem. O curta-metragem surpreende quando foca no vocábulo alienação (e por um momento achei que um senhor bem barbudo apareceria no ecrã). Só que a alienação aqui é a parental, aquela que muitos homens se fizeram valer para não cumprir sua missão como progenitores. Ao deixar aos poucos de lado a narrativa, João Ricardo se afasta um pouco de Isabelle Santos que vai para um caminho totalmente lúdico em sua obra multiplataforma “Vivi Lobo e o Quadro Mágico“. Trata-se de mais um curta-metragem que traz a opressão machista como mote para cuidar dos pequenos, que encontram uma filme educativo de muita qualidade.
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ÁGUA É VIDA (MIGUEL ANTONIO GENZ E JEREMIAS GALANTE, 2018)
No trajeto múltiplo da mostra de animação, o representante dos Estados Unidos “Água é Vida” traz uma obra curta, produzida pelo Mountain Youghiogheny Riverkeeper, uma associação de defesa ambiental, preocupada com a qualidade das águas da bacia de Yough, que vai de Oakland no Estado da Califórnia até a Pensilvânia. A animação usa traços finos, simula folhas de desenho amassadas para, em pouco mais de dois minutos, trazer o problema a ser tratado. Tecnicamente primoroso, usa dos sons da natureza e a partir deles cria metáforas visuais ligeiras para denunciar a torneira de dinheiro que destrói a natureza.
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HELLCIFE – ATÉ QUANDO? (JORGE MARANHÃO, 2019)
Inspirado na obra de Frank Miller, “Hellcife – Até Quando?“, do cineasta Jorge Maranhão propõe um exercício de reflexão em outro curta-metragem de apenas três minutos. Uma cena e uma lembrança, como se ambientado no universo de “Sin City” (o filme faz questão de replicar a fonte clássica da graphic novel). Só que o realizador passa longe do insólito ficcional dos causos de Miller em sua obra-prima. Maranhão (que é pernambucano) fala da realidade da crise de violência urbana que as grandes metrópoles passam. Desenvolvido ao longo do curso de Computação Gráfica no IFPE (Instituto Federal de Pernambuco) traz um jovem realizador que coloca suas referências estéticas a favor de uma história bem original.
Se valendo do entendimento de que a sociedade é um organismo vivo – e em constante movimento – é bem direto ao trazer a história de um homem abalado pela morte da esposa em um latrocínio. Uma cena e uma lembrança. A conclusão nos mostra que viver em uma comunidade institucionalmente falida, além de potencialmente perigoso, é tão imponderável que pode nos colocar diante de demônios recém-nascidos tão rápido que nos faz vítima do mesmo mal que levou quem amamos. É a morte como estatística.
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BLUE & CURT (JESSE COTE, 2019)
Com apenas um minuto, o canadense “Blue & Curt” nos remete a uma das inúmeras esquete de Scrat, na saga de, por enquanto, cinco filmes, “A Era do Gelo” (2002) – que cansou sua fórmula com mais facilidade do que a outra franquia citada nesse texto. Mesmo com a intenção de fazer rir, há também um caráter educativo, pois usa um monstrinho interagindo com um pássaro quase que em um regime de protocooperação.
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A FESTA NO CÉU (ALKISSON MENEZES, 2020)
A Festa no Céu“, de Aliksson Menezes, encerra a seleção do 2º FestCiMM – Mostra Animação com uma simpática fábula. Rapidamente nos ambienta em um mundo onde animais se valem de rotinas humanas, para, com uma narrativa tão infantil quanto o curta-metragem de João Ricardo, traçar uma metáfora sobre a ambição (por vezes desmedida) e as consequências da persistência. Uma narração simplificadora e uma dublagem exagera (não no sentido negativo, apenas como linguagem atraente para crianças), a história do sapo que fez de tudo para participar de uma festa que demandaria asas para chegar termina de forma leve a primeira sessão assistida pela Apostila de Cinema no festival.
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Ficha Técnica da Sessão
2º FESTCiMM – Mostra Animação (Edição Garanhuns)

Canção Sem Voz (Nobuyoshi Suzuki, 16min – 2020, Japão)
Sinopse: O primeiro trabalho em vídeo de Nobuyoshi Suzuki, que dirigiu, animado, roteiro, música, design de som e editado sozinho.Este trabalho descreve o assunto pesado e o pecado de ter um cachorro. Eu gostaria de ver esse trabalho especialmente para aqueles que têm cães de propriedade, aqueles que querem ter cães e aqueles que querem ter cães.
Sonhos da Isah: O Baú do Papai (Joao Ricardo, 9min – 2020, Brasil)
Sinopse: Preparados para uma viagem no tempo? Embarque nesse baú de aventuras junto com Isah e seu Pai! Além dos seus brinquedos favoritos: a dinossaura Dinorah e o robô Robobo, seja testemunha de acontecimentos que irão estimular o debate sobre as regras familiares desde a década de 40.
Água é Vida (Miguel Antonio Genz e Jeremias Galante, 3min – 2018, EUA)
Sinopse: Um curta sobre o meio ambiente e como a indústria de combustíveis fósseis está afetando as mudanças climáticas. É um filme desenhado à mão em preto e branco dedicado ao Território Dakota da Tribo Standing Rock Sioux. O tema principal é sobre o Dakota Access Pipeline (DAPL). A intenção do filme é criar consciência social sobre a contaminação de recursos naturais.
Hellcife – Até quando? (Jorge Maranhão, 3 min – 2019, Brasil)
Sinopse: Porl está pensando em como sua esposa partiu abruptamente e como Hellcife é uma cidade violenta. Inspirado na obra Sin City de Frank Miller.
Blue & Curt (Jesse Cote, 1min, 2019 – Canadá)
Sinopse: Um monstrinho teimoso chamado Curt recebe alguns conselhos de um passarinho inteligente chamado Blue.
A Festa no Céu (Alkisson Menezes, 11 mn, 2020 – Brasil)
Sinopse: Fazer de tudo para ir a essa festa, o problema é que diferente dos pássaros ele não pode voar e como todos os outros animais da floresta ele sofre bullying das aves por causa disso, mas, muito perseverante ele vai tentar ir de qualquer jeito.
Por Jorge Cruz Jr. é advogado desde 2009, graduando em Produção Cultural pelo Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) e escreve sobre cinema desde 2008. Também é editor do site Justiça Desportiva em Pauta.
Publicado em 11 de julho de 2020.
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Apostila de Cinema: 2º FESTCiMM – Mostra Animação

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